segunda-feira, 16 de março de 2009

Esquerda vence eleição presidencial em El Salvador


Com o lema “Nasce a esperança”, o jornalista Mauricio Funes venceu as eleições de El Salvador e será o novo presidente do país. Representante da esquerda, sua vitória encerra 20 anos de hegemonia das forças conservadoras.

Funes recebeu 51,2% dos votos, contra 48,7% o candidato governista, Rodrigo Avila. A vantagem foi de pouco mais de 62.000 votos, segundo o Tribunal Supremo Eleitoral (TSE).

Assim que o resultado se consolidou, Ávila, da Aliança Republicana Nacionalista (Arena), reconheceu a derrota, na eleição mais dura enfrentada por seu partido, que governava El Salvador desde 1989. Funes, candidato de oposição pela Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional, (FMNL) representou a mudança para o povo salvadorenho, que foi às ruas comemorar.

''Como presidente eleito de todos os salvadorenhos e salvadorenhas, buscarei beneficiar a maioria da população, independentemente de suas preferências políticas. Saudação a meus adversários com respeito'', declarou o presidente eleito, em seu primeiro discurso após ganhar a disputa. Funes falou em hotel de San Salvador, ao lado da esposa Wanda Pignato, de origem brasileira e representante do Partido dos Trabalhadores (PT) do Brasil para a América Central.

''Neste dia, triunfou a cidadania que acreditou na esperança e venceu o medo. Esta é uma vitória de todo o povo salvadorenho'', afirmou. ''Esta noite deve ter o mesmo sentimento de esperança e reconciliação que tornou os acordos de paz possíveis. Hoje firmamos um novo acordo de paz, de reconciliação do país consigo mesmo. Por isso, convido a todas as forças sociais e políticas para que construirmos um futuro juntos'', afirmou o novo presidente.

Funes prometeu trabalhar ''incansavelmente'' pelo regime de liberdades. “Nosso propósito é converter El Salvador na economia mais dinâmica da América Central'', declarou.

As ruas da capital foram tomadas por partidários do presidente eleito e de seu vice, o ex-comandante da FMLN Salvador Sánchez Cerén, para celebrar a vitória considerada histórica. O triunfo da FMLN veio na quarta tentativa de conquistar o poder depois de 1992, quando a organização se transformou em um partido político, ao fim de 12 anos de guerra civil.

O TSE e os observadores internacionais ressaltaram a normalidade da eleição no país, que segundo dados ainda não oficiais teve uma participação de 60% dos 4,3 milhões de eleitores registrados. O processo eleitoral, contudo, teve denúncias de irregularidades. Observadores informaram que vários cidadãos estrangeiros tentaram votar com identificação falsa. Na semana que antecedeu o pleito, a FMLN alertou para o fato.

Desafios do novo presidente
Violência. El Salvador tem a taxa mais alta de mortes violentas da América Latina devido à ação dos maras ou pandillas (gangues juvenis armadas). Mas os números vem baixando: em 2008 foram registrados 3.179 homicídios, menos do que em 2006, que teve 3.928 mortes.

Pobreza. Afeta 37% da população. Cerca de 10% se encontra abaixo da linha da pobreza. A taxa de analfabetismo em 2005 era de 18,9%.

Crescimento. O PIB (Produto Interno Bruto) cresceu 3,2% em 2008, e a inflação, 5,5%. As exportações se concentram nas manufaturas e no café e a balança comercial apresenta déficit de US$ 5,2 milhões.

Dependência dos Estados Unidos. O país norte-americano é o principal sócio comercial e receptor de mais de 2,5 milhões de imigrantes salvadorenhos. As remessas que estes enviam se converteram na segunda fonte de subsistência do país (17% do PIB) atrás dos serviços (60%).


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sábado, 14 de março de 2009

Mercado ou direitos?

A atitude da direção da Embraer, independentemente de eventuais desdobramentos futuros, de despedir 4 mil trabalhadores, coloca questões de fundo para o Brasil. Em primeiro lugar, o direito ao emprego, que não pode estar subordinado aos vaivens do mercado. Em segundo lugar, coloca a vulnerabilidade de empresas que centram sua produção no mercado externo.

O direito ao emprego formal é um direito fundamental, que tem a ver não apenas com a garantia de subsistência da grande maioria da população - que vive do seu trabalho. Tem a ver também com a identidade, com a cidadania, com a auto estima, com a possibilidade de organização, de apelo à justiça. Enfim, é um direito essencial, embora as constituições costumem colocá-lo em um lugar subalterno, por exemplo, em relação ao direito de propriedade. Este aparece como um direito essencial, quando na verdade se refere, ao direito de minorias de ter propriedade de grandes empresas, grandes extensões de terra, grandes propriedades imobiliárias e acumular riquezas através delas.

Empresas, como a Embraer, que tiveram enormes lucros nos anos recentes, que se valeram de empréstimos de bancos públicos – como o BNDES -, aproveitam da virada da conjuntura econômica para jogar todo o peso da crise nas costas dos trabalhadores. Alegam a retração do mercado internacional, mas isso ocorre porque não trataram de diversificar seu mercado, seja dentro do Brasil, seja nos países vizinhos.

Não deve haver empréstimos de bancos públicos, isenções tributárias ou quaisquer vantagens para empresas privadas que não tenham, pelo menos, como contrapartida, a garantia do nível de emprego. O enfrentamento é central no neoliberalismo: entre mercado versus direito. O neoliberalismo é uma máquina de expropriação de direitos: transforma o que era direito – como educação e saúde pública – em mercadoria, a que tem acesso quem tem recursos para comprar. Faz o mesmo com o direito ao trabalho, que passa a depender da arbitrariedade das empresas, dos lucros e do plano de investimentos destas.

A chamada “flexibilização laboral” – um dos xodós do governo FHC – representa a precarização das relações de trabalho, em que o capital contrata quando bem entende, da forma que consiga, por períodos determinados, a um contingente de trabalhadores, sem precisar pagar-lhes indenização quando os despede. Em que, direta ou indiretamente, os trabalhadores perdem o contrato de trabalho, os direitos de um vinculo empregatício regido por normas formais, regidas pela Justiça do Trabalho, a que os trabalhadores possam apelar na defesa dos seus direitos. A essa situação o neoliberalismo relegou a maioria dos trabalhadores dos nossos países.

Um dos aspectos mais positivos do governo Lula foi o aumento crescente dos empregos formais, que restabelecem o trabalhador como cidadão, isto é, como sujeito de direitos, mesmo se em grande proporção sejam empregos sem maior qualificação. Evita-se o pior, que é o abandono, a incerteza absoluta, a ausência total de cobertura jurídica e a impossibilidade de se organizarem.

Porém, especialmente em momentos de crise econômica, as contradições se acirram. As empresas querem dispor do direito de desempregar os trabalhadores, sem nenhum respeito ao direito destes. Se consideram vítimas da crise e tratam de repassar o ônus aos trabalhadores, quando acumularam riqueza em grande quantidade no momento de expansão da economia, sem compartilhá-la com os trabalhadores. Querem dividir os ônus, sem ter dividido os bônus.

É um momento de definição na luta pela apropriação do excedente, da mais valia dos trabalhadores e da defesa por parte destes dos seus direitos. Se estreita a base material, a riqueza produzida, quem pode mais chora menos – como diz o ditado popular. O governo tem que tomar posição do lado dos direitos dos trabalhadores e não da busca ilimitada de lucros por parte das grandes empresas. Tem que condicionar em todos os ramos que sejam possíveis a produção para o mercado interno, seguir com os processos de distribuição de renda, que induzem o consumo interno dos bens e serviços produzidos.

O que está em jogo é a prioridade dos direitos – que afetam a massa da população, como o direito ao emprego formal – ou o reinado do mercado, que só leva à concentração de renda e às crises, como esta, produzido no centro do capitalismo e tornada global por seus efeitos. Mostrar que estamos em melhores condições que outros países para resistir a ela, é também mostrar que sabemos defender melhor os direitos da massa trabalhadora, que produz as riquezas do país.

Postado por Emir Sader às 13:05


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El Salvador: eleições decisivas

El Salvador foi sempre o país mais dinâmico economicamente de toda a América Central, apesar da ser o menor país continental – daí o seu apelido de Pequeno Polegar. Seu crescimento, porém, não deixou de ser fortemente brecado pela passagem do capitalismo internacional de seu ciclo longo expansivo –do segundo pós-guerra até meados dos anos 70 -, ficando mais duramente vítima dos mercados externos para a exportação dos seus produtos primários.

Enquanto o México se acoplava ao Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) – decisão que explica por que o país é a pior vítima da recessão atual, por se tornar refém da economia norte-americana – e a maior parte dos países da América do Sul se acolhia a projetos de integração regional, a região centro-americana ficou órfã, uma zona deprimida economicamente e dependente do mercado dos EUA.

El Salvador e Guatemala tiveram fortes movimentos guerrilheiros, em seguida à vitória sandinista na Nicarágua, porém o governo Reagan impediu que o “efeito dominó”, que havia levado a que os regimes do Laos e o Camboja caíssem junto com o do Vietnã, se repetisse na América Central. Com o fim da URSS e, com ela, do mundo bipolar, os movimentos guerrilheiros terminaram a luta insurrecional e se reciclaram para a luta político institucional. A Frente Farabundo Marti para a Libertação Nacional, organização composta por quatro movimentos guerrilheiros mais o Partido Comunista, assinou acordos de paz e passou a atuar como partido político.

El Salvador foi um dos países – junto com o Equador, além do Panamá, que nunca teve moeda própria – que aderiu à dolarização. Desde então o país não se recuperou do que significa renunciar a ter uma política monetária própria, sofrer a subida drástica de todos os preços, menos dos salários, entre outras conseqüências negativas, o que acentuou dramaticamente a imigração de salvadorenhos para os EUA – assim como aconteceu com os equatorianos para a Espanha.

A Frente Farabundo Marti conseguiu eleger grandes bancadas, quase majoritárias, no Parlamento, e a maioria dos prefeitos. Governou durante quatro mandatos a capital, São Salvador, tendo perdido este ano a prefeitura. Teve sempre candidatos à presidência, que quase venceram em eleições anteriores.

Desta vez escolheram como candidato, pela primeira vez, alguém que não é membro da Frente: Mauricio Funes, um jornalista muito conhecido em todo o país. Todas as pesquisas indicam sua vitória provável no próximo dia 15.

No entanto, alguns obstáculos podem impedi-la. Os outros dois candidatos da direita retiraram suas candidaturas para apoiar o candidato do governista partido Arena, um ex-chefe da Policia Federal, diante do risco de vitória da esquerda. Nas mesas de apuração existem três representantes dos partidos de direita e um da Frente, com grandes riscos de fraude. Em terceiro lugar, procedimentos absurdos como, por exemplo, o de que a lista de votantes não é por localidades, mas por ordem alfabética, fazendo com que numa mesma família as pessoas tenham que se deslocar grandes distâncias para votar, com conseqüências evidentemente discriminatórias contra as famílias pobres, em que Funes e a Frente tem maioria de eleitores.

Caso triunfe a Frente, muda a relação de forças política na região centro-americana, em que começam a surgir governos que destoam das políticas de livre comércio, como o polêmico governo de Daniel Ortega, na Nicarágua, e o de Rafael Zelaya em Honduras – governos que aderiram à Alba – e que teria no de Funes um perfil mais claramente progressista em uma região até recentemente sob influência exclusiva dos EUA e do seu aliado privilegiado, o México.

Postado por Emir Sader às 07:27


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As mulheres da Via Campesina realizaram protestos em cinco estados nesta segunda-feira (9). No Rio Grande do Sul, elas ocuparam área de uma papeleira e destruíram mudas de eucalipto. Em São Paulo, foi ocupada uma área em Barra Bonita, que pertence a uma usina. No Paraná, as trabalhadoras rurais marcharam em Porecatu até a praça da cidade, onde "partilharam alimentos da reforma agrária".

Em Brasília, cerca de 600 mulheres ocuparam o andar térreo do Ministério da Agricultura. Segundo a porta-voz do movimento Itelvina Masioli, o grupo não pretende se encontrar com o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes. "Viemos apenas denunciar o modelo de sustentação do agronegócio, que tem como base as empresas multinacionais", afirmou. Mas a principal reivindicação em Brasília foi contra a determinação do Ministério Público do Rio Grande do Sul em fechar as escolas itinerantes em acampamentos mantidos pelo MST o que é, na avaliação do movimento, apenas a ponta de um iceberg que acumula uma rede de ações criminalizantes que tentam “dissolver” o Movimento no estado.

As camponesas, então, ocuparam a Fazenda Aroeira (antiga Fazenda Ana Paula), do Grupo Votorantim. Deixaram o local em uma marcha que reuniu cerca de 700 mulheres. Líderes sindicais, representantes da Via Campesina, do MST e políticos estavam reunidos com a Brigada Militar ao meio-dia para decidir os rumos da manifestação. Segundo presentes, havia um clima de tensão no local. Na Fazenda Aroeira, as manifestantes derrubaram mudas de eucaliptos em uma área de aproximadamente dois hectares, usando foices e facões. A fazenda tem uma área total de 14,5 mil hectares, com 7,5 mil hectares plantados, somente com eucaliptos e é historicamente reivindicada para reforma agrária.

No Espírito Santo o alvo foi um porto de exportações em Aracruz. Segundo a nota, as mulheres entraram no porto, fizeram um ato com a destruição da produção de eucalipto e saíram da área. Ato teria contado com 1,3 mil pessoas no protesto no Portocel. "O objetivo da ação é denunciar a concentração de terras da empresa, que são usadas para plantio de eucalipto para exportação, prejudicando a soberania alimentar; e o repasse de recursos públicos do Estado para essa multinacional, o que tem aumentado ainda mais com a crise mundial".

As manifestações pelo Dia Internacional da Mulher aconteceram também em Recife, num protesto que terminou em confronto com policiais militares de Pernambuco e um sem-terra preso na manhã desta segunda. A ação da Via aconteceu em frente à Usina Cruangi onde no início do ano o Ministério do Trabalho retirou dos engenhos 252 trabalhadores, entre eles 27 menores que estavam em situação degradante. As camponesas pretendiam ocupar o pátio da usina, mas foram impedidas por soldados da PM que fizeram um cordão para evitar a passagem. Um militante do MST foi levado para a delegacia do município de Aliança, a 85 quilômetros de Recife, por pichar um dos muros da usina. Homens e mulheres do MST não aceitaram a prisão do integrante do movimento e entraram em choque com a polícia.

Todas as ações protagonizadas pelas mulheres da Via Campesina fazem parte da Jornada Nacional de Luta das Mulheres da Via Campesina e pretendem denunciar as conseqüências da monocultura do eucalipto em diversas regiões do Brasil, onde, em muitas áreas, dizem, já falta água para o consumo humano e para a criação de animais. A preocupação se estende a operações de especulação financeira ministradas por empresas de celulose.

Em nota, as mulheres explicaram as ações:

“Depois de especular contra a moeda brasileira e ter prejuízos com a crise financeira, a Votorantim Celulose e Papel recebeu R$ 6,6 bilhões do governo brasileiro para adquirir a Aracruz Celulose, através da compra de metade da carteira do Banco Votorantim e de um empréstimo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O custo da compra foi de R$ 5,6 bilhões. A VCP havia prometido gerar 30 mil empregos no estado e mesmo recebendo recursos e isenções fiscais dos governos federal, estadual e de municípios, a Aracruz causou a demissão de 1,2 mil trabalhadores em Guaíba, entre trabalhadores temporários e sistemistas, e a VCP outros 2 mil trabalhadores na metade sul. O agronegócio foi o segundo setor que mais demitiu com a crise financeira. Apenas em dezembro, o agronegócio demitiu 134 mil pessoas em todo país”.



Fotos: Eduardo Seidl


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A grande mídia e o golpe de 64

No debate contemporâneo sobre a relação entre história e memória, argumenta-se com propriedade que a história não só é construída pela ação de seres humanos em situações específicas como também por aqueles que escrevem sobre essas ações e dão significado a elas. Sabemos bem disso no Brasil.

Ao se aproximar os 45 anos do 1º de abril de 1964 e diante de tentativas recentes de revisar a história da ditadura e reconstruir o seu significado através, inclusive, da criação de um vocabulário novo, é necessário relembrar o papel – para alguns, decisivo – que a grande mídia desempenhou na preparação e sustentação do golpe militar.

Referência clássica
A participação ativa dos grandes grupos de mídia na derrubada do presidente João Goulart é fato histórico fartamente documentado. Creio que a referência clássica continua sendo a tese de doutorado de René A. Dreifuss (infelizmente, já falecido), defendida no Institute of Latin American Studies da University of Glasgow, na Escócia, em 1980 e publicada pela Editora Vozes sob o título “1964: A Conquista do Estado” (7ª. edição, 2008).

Através das centenas de páginas do livro de Dreifuss o leitor interessado poderá conhecer quem foram os conspiradores e reconstruir detalhadamente suas atividades, articuladas e coordenadas por duas instituições, fartamente financiadas por interesses empresariais nacionais e estrangeiros (“o bloco multinacional e associado”): o IBAD, Instituto Brasileiro de Ação Democrática e o IPES, Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais.

No que se refere especificamente ao papel dos grupos de mídia, sobressai a ação do GOP, Grupo de Opinião Pública ligado ao IPES e constituído por importantes jornalistas e publicitários. O capítulo VI sobre “a campanha ideológica”, traz ampla lista de livros, folhetos e panfletos publicados pelo IPES e uma relação de jornalistas e colunistas a serviço do golpe em diferentes jornais de todo o país. Além disso, Dreyfuss afirma (p. 233):

O IPES conseguiu estabelecer um sincronizado assalto à opinião pública. Através de seu relacionamento especial com os mais importantes jornais, rádios e televisões nacionais, como: os Diários Associados, a Folha de São Paulo, o Estado de São Paulo (...) e também a prestigiosa Rádio Eldorado de São Paulo. Entre os demais participantes da campanha incluíam-se (...) a TV Record e a TV Paulista (...), o Correio do Povo (RS), O Globo, das Organizações Globo (...) que também detinha o controle da influente Rádio Globo de alcance nacional. (...) Outros jornais do país se puseram a serviço do IPES. (...) A Tribuna da Imprensa (Rio), as Notícias Populares (SP).

Vale lembrar às gerações mais novas que o poder relativo dos Diários Associados no início dos anos 60 era certamente muito maior do que o das Organizações Globo neste início de século XXI. O principal biógrafo de Assis Chateaubriand afirma que ele foi “infinitamente mais forte do que Roberto Marinho” e “construiu o maior império de comunicação que este continente já viu”.

A visão do USIA
Há outro estudo, menos conhecido, que merece ser mencionado. Trata-se de pesquisa realizada por Jonathan Lane, Ph. D. em Comunicação por Stanford, ex-funcionário da USIA, United States Information Agency no Brasil, publicado originalmente no Journalism Quarterly, (hoje Journalism & Mass Communication Quarterly), em 1967, e depois no Boletim n. 11 do Departamento de Jornalismo da Bloch Editores, em 1968, (à época, editado por Muniz Sodré) sob o título “Função dos Meios de Comunicação de Massas na Crise Brasileira de 1964”.

Lane enfatiza a liberdade de imprensa existente no país e a pressão exercida pelo governo sobre os meios de comunicação utilizando os recursos a seu dispor (empréstimos, licenças para importação de equipamentos, publicidade, concessões de radiodifusão e “recursos de partidos comunistas”). A grande mídia, no entanto, resiste, até porque “o governo não é a única fonte de subsídio com que contam os jornais. Existem outras, interesses conservadores, econômicos e políticos que controlam bancos ou dispõem de outros capitais para influenciar os jornais” (p. 7).

O autor, curiosamente, não menciona o IBAD ou o IPES e conclui que as ações do governo João Goulart e da “esquerda” retratadas nos meios de comunicação provocaram um “desgaste da antiga ordem baseada na hierarquia e na disciplina” que se tornou “psicologicamente insuportável” para os chefes militares e para a elite política, levando, então, ao golpe.

O artigo de Lane, no entanto, traz um importante conjunto de informações para se identificar a atuação da grande mídia. Tomando como exemplo a cidade do Rio de Janeiro - “o centro de comunicações mais importante” – afirma:

“Apesar das armas à disposição do governo, Goulart passou um mau bocado com a maior parte da imprensa. A maioria dos proprietários e diretores dos jornais mais importantes são homens (e mulheres) de linhagem e posição social, que freqüentam os altos círculos sociais de uma sociedade razoavelmente estratificada. Suas idéias são classicamente liberais e não marxistas, e seus interesses conservadores e não revolucionários” (p. 7).

No que se refere aos jornais, Lane chama atenção para a existência dos “revolucionários”, de circulação reduzida, como Novos Rumos, Semanário e Classe Operária (comunistas) e Panfleto (Brizolista). O mais importante jornal de “propaganda esquerdista” era Última Hora, “porta-voz do nacionalismo-esquerdista desde o tempo de Vargas”. Já “no centro, algumas apoiando Jango, outras censurando-o, estavam os influentes Diário de Notícias e Correio da Manhã”. E continua:

“Enfileirados contra (Jango) razoavelmente e com razoável (sic) constância, encontravam-se O Jornal, principal órgão da grande rede de publicações dos Diários Associados; O Globo, jornal de maior circulação da cidade; e o Jornal do Brasil, jornal influente que se manteve neutro por algum tempo, porém opondo forte resistência a Goulart mais para o fim. A Tribuna da Imprensa, ligada ao principal inimigo político de Goulart, o governador Carlos Lacerda, da Guanabara (na verdade, a cidade do Rio de Janeiro), igualmente se opunha ferrenhamente a Goulart” (pp. 7-8).

Quanto ao rádio e à televisão, Lane explica:

“Cerca de metade das estações de televisão do país são de propriedade da cadeia dos Diários Associados, que também possui muitas emissoras radiofônicas e jornais em várias cidades. (...) Os meios de comunicação dos Diários Associados, inclusive rádio e tevê, empenharam-se numa campanha coordenada contra a agitação esquerdista, embora não contra Goulart pessoalmente, nos últimos meses que antecederam ao golpe” (p. 8).

Participação ativa
A pequena descrição aqui esboçada de dois estudos que partem de perspectivas teóricas e analíticas radicalmente distintas não deixa qualquer dúvida sobre o ativo envolvimento da grande mídia na conspiração golpista de 1964.

A relação posterior com o regime militar, sobretudo a partir da vigência da censura prévia iniciada com o AI-5, ao final de 1968, é outra história. Recomendo os estudos de Beatriz Kushnir, “Cães de Guarda – Jornalistas e censores do AI-5 à Constituição de 1988” (Boitempo, 2004) e de Bernardo Kucinski, “Jornalistas e Revolucionários nos tempos da imprensa alternativa” (EDUSP, 2ª. edição 2003).

As Organizações Globo merecem, certamente, um capítulo especial. Elio Gaspari refere-se ao “mais poderoso conglomerado de comunicações do país” como “aliado e defensor do regime” (Ditadura Escancarada, Cia. das Letras, 2004; p. 452).

Em defesa da democracia
Não são poucos os atores envolvidos no golpe de 1964 – ou seus herdeiros – que continuam vivos e ativos. A grande mídia brasileira, apesar de muitas e importantes mudanças, continua basicamente controlada pelos mesmos grupos familiares, políticos e empresariais.

O mundo mudou, o país mudou. Algumas instituições, no entanto, continuam presas ao seu passado. Não nos deve surpreender, portanto, que eventualmente transpareçam suas verdadeiras posições e compromissos, expressos em editoriais, notas ou, pior do que isso, disfarçados na cobertura jornalística cotidiana.

Tudo, é claro, sempre feito “em nome e em defesa da democracia”.

Por todas essas razões, lembrar e discutir o papel da grande mídia na preparação e sustentação do golpe de 1964 é um dever de todos nós.

Venício A. de Lima


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quinta-feira, 5 de março de 2009

Fidel sobre a globalização neoliberal

A TV cubana transmite o Encontro dos Economistas em todas as suas atividades, de forma direta, em TV aberta, para todo o país. Há mesas com grandes temas, à tarde e à noite, assim como comissões de manhã, divididas em temas: finanças, desenvolvimento: políticas agrárias e segurança alimentar, crise econômica global, temas sociais, energia e meio ambiente, desenvolvimento e globalização e integração.

O presidente da Associação de Economistas Cubanos, Roberto Verrier, recordou, no seu discurso de abertura do evento, palavras proferidas por Fidel Castro no Encontro realizado em janeiro de 1999, há 10 anos, no primeiro Encontro de Economistas, quando poucos se atreviam a prever a crise que vive hoje:

“Que tipo de globalização temos hoje? Uma globalização neoliberal; muitos de nós a chamamos assim. Ela é sustentável? Não. Poderá subsistir por muito tempo? Absolutamente não. Por séculos? Categoricamente não. Durará apenas décadas? Sim, só décadas. Porém mais cedo do que se imagina terá que deixar de existir.”

“Será que eu acredito que eu sou uma espécie de profeta ou de adivinho? Não. Conheço muito de economia? Não. Quase absolutamente nada. Para afirmar o que eu disse basta saber somar, diminuir, multiplicar e dividir. O que aprendem as crianças na escola primária.”

“Como vai se produzir a transição? Não sabemos ainda. Mediante grandes revoluções violentas ou grandes guerras? Parece improvável, irracional e suicida. Mediante profundas e catastróficas crises? Infelizmente é o mais provável, quase quase inevitável e transcorrerá por vias e formas de luta muito diversas...”

Comentou Verrier: “Aquele discurso nos desconcertou a todos por sua brevidade e contundência, quando ainda estávamos por constatar seu profundo avanço sobre os acontecimentos que se precipitaram no lapso de uma década.”

E, mais adiante, disse: “Se requer uma análise séria, profunda e rigorosa sobre a crise econômica global e seu impacto no setor financeiro. É imprescindível um novo desenho da ordem econômica internacional e uma reestruturação de sua arquitetura financeira. Toda analise sobre este tema requer a mais ampla participação da comunidade internacional. Todos os países e, em particular, os países em via de desenvolvimento, têm o direito a estar presentes, a aportar seus pontos de vista e perspectivas, e a fazer parte das soluções que se definam.”

Postado por Emir Sader às 02:38


Existem coisa que são óbvias, só os neoliberias nao vêêm...


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Começa a era Raul?

Um ano depois de assumir a presidência, cautelosamente, Raul Castro introduz mudanças significativas na composição do governo, tirando a dois dos principais representantes da geração mais jovem – Carlos Lage, que era uma espécie de primeiro ministro –e Perez Roque, um jovem chanceler formado diretamente por Fidel, de quem foi um assessor direto. Além do Ministro de Economia, José Luis Rodrigues, entre outros.

As especulações vão em distintas direções. Depois que Fidel disse que não se pronunciaria mais sobre política interna, para dar mais liberdade de ação ao governo, Raul inclui a militares de alta graduação no governo, gente que sempre trabalhou diretamente com ele. Pode significar a busca do que ele considera uma maior eficácia – como se considera que existe nas empresas dirigidas pelos militares – e que analistas internacionais apontam como uma variante da opção tomada pela China – de abertura econômica, mas rígido controle da economia por parte do Estado.

Em outra direção, a mudança de Perez Roque por seu segundo, pode ter a ver com a mudança de governo nos EUA, mas se o substituito chega a ser efetivado, pode não ter outro significado, porque ele trabalhou sempre diretamente com Roque.

O anúncio foi feito como última notícia do jornal da televisão do meio dia, depois da reunião do Conselho de Estado realizada pela manhã. A surpresa veio por afetar a dois dirigentes que sempre foram considerados candidatos a uma equipe coletiva que deve dirigir a futuro o Estado cubano. Os outros dirigentes sempre mencionados – Ricardo Alarcon, dirigente histórico da política externa cubana e atualmente Presidente do Parlamento cubano, assim como o Ministro da Cultura, Abel Prieto, que se encontra na Espanha, mantêm seus cargos.

Raul demonstrou, no seu principal pronunciamento, um sentimento realista sobre as condições concretas de vida dos cubanos, comprometendo-se a passar a limpo a política de remunerações, para promover melhorias nos salários. Na mais importante decisão tomada até agora, decidiu-se flexibilizar a escala salarial, incentivando a produtividade – no sentido estrito da Carta ao Programa de Gotha, de Marx, que dizia que no socialismo, cada um receberia de acordo com seu trabalho, deixando para o comunismo, quando exista fartura, a remuneração pelas necessidades de cada um.

Por outro lado, Raul também se mostrou sensível à flexibilização de algumas limitações no acesso aos hotéis e à compra de celulares. Outras medidas foram adiadas depois que os furacões causaram danos gravíssimos à agricultura cubana.

Mas a partir de agora é que o governo pode começar a ganhar uma nova fisionomia, mesmo antes da realização do novo Congresso do Partido Comunista, a realizar-se neste ano.

Começa a era Raul. Prepara-se a futura equipe governante em Cuba? Tudo isso é sempre tratado com grande discrição. As medidas concretas, especialmente na área econômica e externa, dirão a sua real dimensão.

Postado por Emir Sader às 05:01


Quem Diria, e eu que pensava ser carlos Lage o subistituto de Raúl....


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